10 sintomas de que preconceito é o nome da doença que deveríamos curar

Diante da decisão judicial que autoriza a prática de suposta "reversão sexual" popularmente chamada de "cura gay", abrimos espaço n'Ø Bløg para que LGBTs da Mutato contem como a associação de suas sexualidades ao universo das doenças é nociva para todos nós - mas, em especial, para a comunidade LGBT.

A seguir, 9 relatos que mostram que não podemos aceitar calados retrocessos como este. Aqui não, obrigado.

 

"É engraçado como a sociedade tenta moldar a gente. Sempre rolou uma briga interna pra entender o porque que eu não me encaixava na sociedade. O que tinha de errado que eu não conseguia me encaixar nos papos que rolavam nas rodas de amigos? Por que eu sou tão tímido e não consigo me relacionar direito com estranhos? Por que eu preciso falar de futebol se eu não quero? Por que pra algumas pessoas é tão mais fácil fazer amizades e se soltar e eu demoro meses ou anos pra conseguir uma aproximação ou mesmo criar intimidade? Essas perguntas sempre me perseguiram desde que me entendo por gente e é muito triste pensar que, durante a minha infância, eram estas as principais dúvidas que me rodeavam. Pensa numa criança com conflitos internos muito mais complexos do que os de qualquer adulto. Esse era eu. E ninguém imaginava.
O mais estranho nisso tudo é não saber o motivo dessas perguntas. Elas não tinham respostas, mas eu sabia que alguma coisa não se encaixava. Só só fui entender realmente que esses questionamentos estavam ligados à minha sexualidade com 27 anos, quando comecei a fazer terapia e, consequentemente, a me conhecer melhor e entender que tudo que somos hoje é reflexo constante do que fomos no passado. O processo do autoconhecimento poderia ter sido natural e menos traumático se eu soubesse desde criança quem eu era, mas isso me foi tirado desde sempre. Fui entender o que era uma pessoa LGBT depois dos meus 15 anos, mais ou menos. Até então era assunto proibido. Não podia ser dito na frente das crianças. Iria corromper. Se seu filho "virasse" "viado", "bicha", isso seria humilhação pra família.
Privar o direito do conhecimento e tratar a essência de uma pessoa como algo abominável, doente, é matar qualquer um aos poucos. Eu hoje sou seguro do que sou e tenho total consciência de que não se trata de doença, mas quantas crianças e pais pensam o contrário e vão apenas repetir todo o ciclo de sofrimento que praticamente todo LGBT passou? Se tem alguma coisa aqui doente é a sociedade que me privou (e ainda priva) de muita coisa."

- Felipe Lecina, Criação

 

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"O primeiro sintoma da minha doença se manifestou logo cedo, quando todo mundo falava que um garoto da minha escola era apaixonado por mim, mas eu era apaixonada pela minha melhor amiga. Eu só percebi que era “doente” mesmo quando eu não entendia porque só era "ok" quando meninas eram apaixonadas por meninos e meninos eram apaixonados por meninas, sendo que eu era apaixonada pelos dois."

- Camilla Oliveira, Insights

 

"Seria cômico se não fosse trágico dizer que por muito tempo, de fato achei que eu era doente. Que era errado ser do jeito que eu era. Que era errado gostar das pessoas que eu gostava, ter os desejos que eu tinha. Por longos anos foi uma luta entender o que estava acontecendo de “errado”comigo. Eu queria, a todo custo, ser igual aos meninos da escola, os meninos do meu time, ser como meu pai. Mais importante ainda, a todo o momento eu sentia que não orgulhava meu pai por não ser o exemplo de “homem” que foi imposto que me tornasse e que ele me cobrava sempre.
Foi então que percebi que minha verdadeira doença era não me aceitar como eu era. Era evitar me apaixonar por quem eu era realmente apaixonado. Minha doença era não aceitar meu jeito, minha voz, meu desejo. Minha doença foi fazer pessoas sofrerem por fingir gostar do sexo oposto, sendo que era uma grande mentira. Carrego essa culpa até hoje e tento seguir em frente.
A partir do momento que percebi minha “doença” e a aceitei, me tornei outra pessoa. Mais feliz, mais sociável, sem medo de falar, sem medo de bater de frente, sem medo de ser eu. Me permiti começar a viver e viver livre é a melhor coisa do mundo."

- Bruno Honório, Insights

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"Gostar de homem nunca foi um problema pra mim. Descobri quando surgiu a oportunidade de ficar com um, eu fui lá e fiquei, e gostei, e pronto. Como conheço muita gente que sofreu nesse momento, sei que o meu caso foi uma benção. Eu fui abençoado nesse momento.
Mas apesar do armário ser um lugar horrível e gélido, nada garante que ao sair dele todos os seus problemas vão acabar. Alguns estão só começando.
Talvez você que está lendo não esteja familiarizado com todas essas categorias que mencionarei a seguir, mas: eu sou velho demais pra ser um twink, sou novo demais pra ser um daddy, afeminado demais pra ser "discreto fora do meio", flácido demais pra ser uma barbie, magro demais pra ser um urso, gordo demais pra ser um lontra, desengonçado demais pra dançar a última da Rihanna.
Eu luto por direitos LGBT por uma questão de justiça, de ideologia política, de democrata que sou. Mas é quase que como lutar por terceiros, porque dentro do mundo gay convencional, eu me sinto só. E mesmo que descobrir a minha homossexualidade não tenha sido nada sofrido, conseguir "existir" dentro do tal vale já foi sim penoso. Já fiz muito pra conseguir me encaixar, pra parecer o gay idealizado que a sociedade me pintou e que a maior parte da comunidade LGBT espera. E essa é a minha cura, o meu processo de tratamento: cada dia, um comprimido de auto-aceitação. Estou longe de ser seguro, de me achar lindo, de ter orgulho do meu corpo em qualquer estágio dos zilhões de efeitos sanfonas, etc, mas um fato é inegável: o Mario Lemes de hoje está muito melhor que o Mario Lemes de cinco anos atrás, e não há ninguém neste mundo que possa parar a evolução desse tratamento.
Eu não posso permitir que tratem a homossexualidade como doença, porque ela foi justamente o início da minha cura. Ser gay foi a primeira coisa que aceitei sobre mim."

- Mario Lemes, Criação

 

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"Os primeiros sintomas eu senti quando ainda estava na escola, a maioria dos meus amigos eram meninas e qualquer coisa que elas faziam me parecia muito mais interessante que as atividades dos colegas meninos. Às vezes me arriscava jogar bola ou entrar nas brincadeiras mais violentas. Tinha certeza que dava conta também, mas sempre era inferiorizado pelos outros garotos. Eu não tive namorada, uma vez fiquei muito próximo de uma garota e até fantasiei um namoro, mas a gente era só "mais que amigas, friends".
A cada aniversário a atração por garotos aumentava, tudo indicava que o caso era grave, mas a religião e os bons costumes preferiam a morte à homossexualidade e, aos poucos, fui matando quem eu era, apagando minha sexualidade.
Alguns anos de infelicidade seguiram até eu ter o primeiro "surto": depois do Carnaval, várias festinhas, vários amigos gays que me ajudaram como num grupo de apoio, uma Parada Gay e alguns beijos em homens em lugares públicos, senti que não tinha volta, eu percebi que era crônico. Minha família não sabia, eu precisava contar. Foi um caos, guardei isso em segredo por bastante tempo mas, quando finalmente contei sobre isso, tive amor, a cura que eu precisava para todo o drama que eu tinha sofrido.
Sobre a viadagem... Sigo bem assim, obrigado."

- Leo Maia, Criação
 

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"Lembro que a ideia de ser homossexual sempre me assustou. Por, na época, ser um homem gay negro e careca, qualquer comparação que me levasse à Vera Verão me causava pavor. Não queria ser assim, não sabia que podia ser de outro jeito - não que tivesse qualquer mal, mas algo em mim não estava bem.
Crescer gay dentro de uma sociedade que usa isso como chacota é difícil porque te leva a repressões e questionamentos com os quais a gente não sabe bem lidar. É engraçado quando tentam te unir a mulheres, é engraçado a tentativa de mascarar isso de alguma forma, mas não é engraçado querer gritar isso a plenos pulmões e não poder.
Eu não era como os outros meninos. Por muito tempo eu quis ser, eu quis sentir, eu quis ser igual. Não era, nunca seria e talvez fosse esse um dos processos que me ajudariam a ser cada vez mais fiel a quem eu realmente sou.
Eu não era uma aberração, eu não era uma doença, eu era diferente e essa diferença ainda incomodava, mas foi só depois de ouvir "Beautiful", em 2003, e ver o clipe (que contava com um beijo incrível de um casal gay) que pude perceber que isso era um pouco mais complexo do que tudo à minha volta. Teria medo, teria preconceito, teriam olhares mil, mas o amor seguiria sendo algo bonito e puro.
Hoje eu abraço o Caio de antes, mostrando pra ele que isso foi a melhor coisa que ele poderia ter feito. Hoje eu sei que não sou esquisito, sei que não sou uma aberração - e muito menos doente."

- Caio Baptista Antonio, Criação

 

"Os efeitos colaterais da cura não estão na bula (pouco lida e mal interpretada). Incluem sentimentos de opressão, depressão e síndromes incontáveis; sintomas visíveis e invisíveis. Além de despertar raiva (de outros) e, inclusive, causar a morte.
Pior que o tratamento, só o diagnóstico. Como pode alguém dizer que a felicidade de alguns é doença? Que a liberdade do outro é aberração? Que a paz em ser você mesmo (ou quem você quiser) é loucura?
Alguém deveria inventar um remédio pra o preconceito e não transformá-lo em remédio. Pior que isso, só aceitar o ódio como receita caseira. Eu sou feliz, e não doente. E o que pode me matar é o que você considera o seu remédio."

- R.B., Atendimento

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"Enfrentar a adolescência como gay me fez passar por dramas clássicos como realmente sentir que havia alguma coisa errada comigo, pedir a Deus que me “consertasse”, me forçar a me masturbar pensando em mulheres e fingir interesse por mulheres pros meus amigos pra me fazer sentir mais “normal”.
Como um adolescente dentro do armário, passando por tudo isso sozinho e só com meus pensamentos, chegou uma hora que eu cansei e resolvi assumir essa identidade secreta e me aceitar com essa “doença”. De dia eu seria o “Vitão”, bróder, e de noite “Vitona”, a ursa. Resolvi me vingar da hipocrisia e do julgamento atacando o patriarcado no cerne da família e dos bons costumes. Usando a ferramenta da época, o Bate Papo do UOL, eu transava com homens casados, pais de amigos, diáconos da igreja que papai frequentava.
Mas levar essas duas vidas tinha um custo. Eu nunca me sentia 100% eu.
Foi quando eu conheci outros "doentes" que viviam expostos como gays e pareciam felizes, se apaixonavam entre eles e não precisavam de identidades secretas que eu me juntei a eles. E hoje somos felizes para sempre no Vale dos LGBTQ+’s."

- Victor di Lorenzo, Criação

 

"O primeiro sintoma foi a negação. A fase inicial da doença autoimune que mais mata no Brasil. Entre um Google e uma ida ao médico, muito medo, desconfiança e anos calado (8 para ser mais exato). Você tenta medir as consequências da revelação pro mundo e falha. Você tenta sair desse ciclo e falha mais um pouco. Você é uma falha. Até o dia em que você cansa. Cansa de atuar, de tentar ser normal. Cansa de negar o diagnóstico fatal: GAY!
E esse cansaço - em algum tipo de processo quântico - vira luta, a luta te fortalece, te aproxima de quem está no mesmo leito. E nossa força grita todo santo dia nesse ambiente hospitalar que vivemos: não voltaremos pro canto espremido das suas mentes pequenas! JAMÉ!"

- Erick Garcia, Insights

 

"Eu tenho lembranças de "ser doente": bem pequena queria brincar de carrinho e pega-pega com os meninos, queria praticar esportes, não ligava para roxos e machucados. Ser gay, lésbica, trans era considerado errado, doença, perversão. Mas, no fundo, sabia que queria ficar com meninas.
Na adolescência continuei com alguns sintomas: admirava (demais) algumas amigas, não me encaixava no padrão das garotas do colégio e às vezes que tentei foram horríveis pra mim. Eu não me via e nem acreditava naquele personagem que eu estava inventando, tentando me encaixar em algo para fugir do que era "errado".
Eu mesma caçoei e fui homofóbica para afastar qualquer (todas) suspeitas sobre mim. Eu era uma criança super ~viada~, digo, sapatão.
É bem fácil confundir gênero e sexualidade. Eu gostar de coisas de "menino" me fazia lésbica? Aprendi com a vida e com pessoas maravilhosas que não. O que me faz ser lésbica é simplesmente ser mulher e gostar de mulher.
Não é errado, não me faz diferente de ninguém, não me faz precisar de cura.
Pelo contrário, depois que me assumi (pra mim mesma, pra família, amigos e sociedade), consegui ser mais eu mesma, consegui fazer amigos de verdade, amar de verdade, ser eu de verdade.
Até hoje faço terapia pra entender que eu não sou o problema. Alguém precisar de terapia pra entender isso já é péssimo, mas pelo menos estamos caminhando pra frente, nos entendendo como seres humanos diferentes e complexos, muito além de rótulos rasos.
Espero que as pessoas e os profissionais entendam isso. Para que a gente não retroceda ainda mais como sociedade. Eu realmente acredito que o amor pode salvar. Amor é amor."

- Juliana Boscardin, Produção Audiovisual

30 anos do GIF em 30 imagens: uma homenagem à cultura do mash-up

Esta semana não é como outra qualquer para os adoradores do Deus GIF: ele faz aniversário de 30 anos. Sim, este formato maravilhoso, divino, que nos permite demonstrar o que sentimos sem escrever uma só palavra está completando 3 décadas de vida.

A primeira versão do GIF, criada pelo norte-americano Steve Wilhite enquanto trabalhava para a companhia CompuServ, foi lançada em 1987 (cof-cof), mas ainda sem toda a glória de seu potencial memético. Ele surgiu, na verdade, como um remendo para comprimir fotos e animá-las em tempos de conexão discada à internet. Com o tempo, para nossa alegria, foi alçado a ícone da cultura do remix que vivemos 3 décadas depois.

Hoje, os GIFs viraram uma camada especial de comunicação, um movimento cultural real/oficial entre millennials ultraconectados, permitindo que verdadeiros impérios se erguessem (já ouviu falar no GIPHY, o Google dos GIFs?) e a gerar disputas pesadas sobre direitos autorais

Mas como postar GIFs > escrever, vamos a eles?

1) No começo, eles eram toscos, bem toscos.

Geralmente com uma função clara: dizer que o site estava em construção

Geralmente com uma função clara: dizer que o site estava em construção

2) Mas já naquela época começaram a aparecer indícios de um grande potencial "memético".

BEBE DANÇANDO GIF ORIGINAL.gif

3) Aliás, as crianças são uma fonte de GIFs maravilhosos.

BABY SURPRISED.gif

Você 
duvida?

4) Então toma essa:

5) Mas precisa ir com calma para não deixar ninguém irritado.

6) Ou a gente se assusta, sabe?

7) Fica muito confuso...

8) ...e deixa de responder por nós mesmos.

9) E se ficou alguma dúvida sobre o potencial das crianças... 

10) ... é porque você nunca viu um batizado desses, bicho.

Berenice, segura.

Berenice, segura.

11) E os catioríneos não ficam atrás no potencial memético.

12) E não me venha com graça...

13) ...porque eles levam a sério esse lance de ser o melhor amigo do homem. 

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14) Postura bem diferente da adotada pelas lhamas.

15) Mas os cerumaninhos adultos não ficam para trás das lhamas, dos bebês & dos catioríneos.

16) Até porque a realidade deixa tudo mais complicado.

17) Por isso que o segredo da vida é se divertir até onde menos se espera.

18) Né non, Wynona?

19) Precisamos saber usar os GIFs a nosso favor. Por exemplo...

... lidando com as inimigas.

... lidando com as inimigas.

20) Ou quando tudo dá errado.

21) Nessas horas, rir é sempre o melhor remédio.

22) E não se esqueça: assim como o GIF, você nasceu pra brilhar.

LIPSYNC MUSE.gif

23) Acha que é exagero? Pois toma: o GIF mexeu até na maneira como pensamos sobre sexo.

Drake & Rihanna: vocês também.

Drake & Rihanna: vocês também.

Sim, tem estudo que fala sobre isso, como esse (com um título maravilhoso: Giffing a fuck: non-narrative pleasures in participatory porn cultures and female fandom.

24) Ou como consumimos cultura popular.

Segura esse mash-up!

Segura esse mash-up!

25) Além de ter inspirado toda uma nova geração de artistas...

Esses GIFs aí em cima foram criados por artistas / designers pagos pela GIPHY. Mas tem muito mais gente, tipo esse outro artista italiano, que faz umas coisas maneiríssimas.

26) ...e alimentado muitas tretas também.
Como esta: qual o jeito certo de pronunciar: GIF ou JIF?

Ora, ora, seu Xeroque Rolmes.

Ora, ora, seu Xeroque Rolmes.

27) Se você tá achando que é GIF, errou feio, errou rude.

Quem encerrou a treta foi o próprio Steve Wilhite, inventor do GIF (encerrou nada, teve gente negando os fatos #PósVerdade).

Então fica aí o questionamento: ele usou um GIF ou um JIF pra contar isso pro mundo?

28) Isso deixou muita gente revoltada, é claro...

29) Mas aí o melhor é deixar pra lá, porque o que importa mesmo é participar.

30) No final das contas, GIF, cê tá de parabéns.

Continue assim, acabando com nossa produtividade & nos fazendo felizes.

Continue assim, acabando com nossa produtividade & nos fazendo felizes.

10 (ok, 11) coisas que vamos te contar sobre o que é ser mulher no ambiente de trabalho

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, 11 mulheres** de diferentes áreas da Mutato produziram textos, entre manifestos, relatos e reflexões, para te lembrar - nos lembrar - que a indústria da qual fazemos parte ainda está numa grande bolha machista.

Que ainda há muito a ser feito. E que hoje é dia de reflexão. Hoje, e cada vez mais, o espaço é e será delas. Tem que ser mais delas. E a gente precisa mudar. Muito.

Compartilhe este(s) texto(s), leve essa reflexão para mais pessoas, pense no que você pode fazer para tornar o mercado menos excludente, machista e retrógrado. Comentários propositivos são bem-vindos, porque a mudança é urgente.

*O header deste post é uma arte criada pela talentosa ilustradora
**Atualizamos o post para incluir mais um depoimento no dia 09.03, às 16h45

1. É hora de virar o jogo

A gente se acostuma. Se acostuma a chegar numa apresentação e prender o cabelo antes de falar, pra parecer mais séria. Se acostuma a começar a falar e ser interrompida. A ser ouvida com um sorrisinho. Se acostuma a ser apresentada pelo nome, mas não pelo cargo. E o cargo, muitas vezes, estar errado. A olharem para o homem ao seu lado enquanto falam.

A gente se acostuma a não discutir para não parecer histérica. Não parecer teimosa, mesmo quando se está bastante convicta. Se acostuma a esconder que quer ter filhos, ou que tem. Acha que faz parte. Se acostuma a não participar de reuniões decisivas. De ser a única mulher em reuniões importantes. Se acostuma a comentar de outras mulheres que encontra profissionalmente, destacando quando alguma se sobressai, como sendo a exceção. A voltar para casa achando que não estava bom o suficiente. A não ser elogiada. Se acostuma a falar palavrão para parecer mais ousada. A não criticar piadas machistas para evitar um comentário no minuto em que a gente sair.

A gente se acostuma, é verdade. Mas se acostumar não é aceitar, não é se acomodar, não é compactuar. É esperar a hora certa de virar esse jogo. E ela vai chegar.

- Fernanda Guimarães, Criação/Audiovisual

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2. É hora de tocar na banda, e não só assistir ela passar

O padrão que se espera de uma liderança mulher no mercado de trabalho é inatingível. Já é difícil chegarmos nessa posição e, quando chegamos, as barreiras ficam claras. Infelizmente, claras apenas para nós, mulheres.

Parte da sociedade exige que as mulheres sejam fortes, que se posicionem e que não tenham medo ao falar ou lidar com problemas. Até o momento em que elas se posicionam e falam. Nesse momento nos pedem para falar, por favor, um pouco menos. Um pouco mais baixo. Um pouco mais calma. Um pouco mais cuidadosa.

A grande controvérsia disso tudo é que traços de personalidade relacionados à força, liderança, resolução e coragem são (erroneamente) traços culturalmente entendidos como pertencentes ao gênero masculino. Por isso se espera da mulher, líder, vejam só, um comportamento masculino. A "mulher macho".

Desde que não atrapalhe o homem, claro.

Por outro lado exigimos que essa mesma mulher seja "feminina". Por definição cultural, a sociedade entende mulheres como pessoas cuidadosas, calmas, gentis e que se sacrificam pelos outros.

A mulher que luta e consegue quebrar a barreira da coragem, mesmo que aceita no mercado, é cobrada para ser mais calma, dócil e cuidadosa. Ao mesmo tempo que mulheres que são mais tímidas e têm dificuldade em se impor são cobradas para serem mais fortes

É uma grande pegadinha. Uma grande piada de mau gosto.

A única e verdadeira coisa que esperam das mulheres é que elas não ocupem os mesmos lugares que os homens. E isso inclui remunerações equivalentes.

No livro "Faça acontecer", Sheryl Sandberg traz uma reflexão importante: "Nem todas as mulheres vão querer ser diretoras, presidentes de empresa, mas todas devem almejar participar da história, sair da posição de espectadora. Tente tocar na banda em vez de vê-la passar."

Nesse mesmo livro, Sheryl mostra que mulheres precisam provar sua capacidade com muito mais frequência que os homens. E que não, isso não é coisa da nossa cabeça. Um relatório da McKinsey destacou que homens são promovidos com base em seu potencial, enquanto mulheres são promovidas com base no que já realizaram. Tudo é feito para diminuir a nossa autoconfiança. Entendem?

Nos anos 70, "saímos da sombra" era uma das expressões de ordem na luta feminista. Não somos um segundo grupo e a nossa luta não deve estar em segundo plano.

No dia que a sociedade entender que as questões de gênero dizem respeito tanto aos homens quanto às mulheres teremos um avanço na compreensão da dimensão dos problemas enfrentados por todas nós. Seja no mercado de trabalho ou fora dele.

- Pri Muniz, Insights

3. O esforço extra é sempre nosso...

Alguns anos atrás lembro de perguntar pro meu chefe alguma coisa super especifica que tinha a ver com nosso trabalho e ele não soube responder, disse que iríamos descobrir juntos e em um dado momento percebi que tínhamos a mesma experiência, o mesmo conhecimento, só uma diferença: ele não tinha medo de estar numa posição de liderança.

Eu me apavorava só de pensar. Para mim, estar num cargo desses exigiria uma capacidade, um conhecimento, um aprendizado que demoraria anos para construir. Às vezes a gente coloca uma promoção ou um cargo num patamar tão alto que tornamos inatingível para nós mesmas.

Então eu passei a analisá-lo... e percebi que ele fazia questão de trazer à tona cada uma de suas conquistas. Passei a fazer o mesmo, e as pessoas mudaram seu olhar sobre mim. De repente comecei a chamar atenção fazendo exatamente a mesma coisa que sempre fiz, com a diferença de que agora eu me exibia.

Não demorou para que eu chegasse ao cargo de gestora e, ainda que as vezes me sentisse uma farsa, eu sempre dei o meu melhor. Não é sobre aspirar um cargo alto, é sobre a dificuldade que nós mulheres temos de confiar no nosso trabalho, de valorizá-lo e enxergar todas as transformações diárias que fazemos.

Existe uma linha tênue entre ser arrogante e ter orgulho do que construiu - e a verdade é que, muitas vezes, com medo de tropeçar em um ou outro, acabamos aceitando a sombra que nos são atribuídas. A busca pela melhoria deve ser contínua, mas sempre alerta para o perigo de negligenciarmos nossa importância.

- Marina Bonafé, Influência

4. E mesmo falando mais alto, somos silenciadas

O ambiente de trabalho sempre foi muito mais desafiador para as mulheres. Precisamos nos provar mais, mostrar mais serviço e falar mais alto para sermos ouvidas. Isso acontece independentemente de cargo, de empresa, de área ou contexto social. O fato é que, para conseguirmos reconhecimento, precisamos contar com fatores externos a nós e ao nosso desempenho. Aquele papo de meritocracia, ah, ele com certeza não serve para nós mulheres (a realidade é que ele serve bem apenas ao homem heterossexual cisgênero e branco, claro).

Não é difícil lembrar das vezes que nosso trabalho deu reconhecimento a um homem. Infelizmente, isso acontece o tempo todo e por todos os lugares que passei, vi acontecer com minhas colegas e comigo.

Quantas horas produzindo um documento fizeram um homem brilhar em uma apresentação na qual sequer estávamos? Ou se estávamos, era sentada e calada? Quantas vezes nos posicionamos frente a uma questão, porém nossa opinião mal foi ouvida, mas quando reproduzida por um colega nosso, ela fazia todo o sentido?

São apenas reflexões de situações que passamos a todo o momento. A busca por reconhecimento da mulher no mercado de trabalho é penosa e chega a ser cansativa. Aprendemos a nos esforçar mais, a nos expor mais, a falar mais alto e sermos teimosas. Mas essa ainda é uma questão em que as condições externas a nós implicam - e muito. Até quando teremos que contar com a sorte de ter uma liderança feminina, com a sorte de termos um colega ou chefe mais desconstruído de seus preconceitos e machismo, a sorte de estar em um lugar que busca equidade (e reforço o ato de buscar, pois essa realidade ainda não existe em nosso mercado)?

- Camila Pons, Planejamento

5. A pressão só aumenta se você é mãe

Da extensa lista sobre coisas que não são fáceis na vida de uma mulher dentro de uma agência (dentro do mercado de trabalho, em geral) é necessário falar sobre a profissional que também é mãe e tenta conciliar inúmeras funções em inúmeras jornadas de trabalho, remunerado ou não.

Minha experiência em diferentes agências nunca me colocou em contato com muitas mulheres mães e me pergunto com frequência sobre o quanto o trabalho está ditando e controlando escolhas pessoais como a de ter ou não um filho. Como mulher, é meu direito escolher ser ou não ser mãe. Mas essa escolha nunca deveria vir permeada de questões como: será que vou ser mandada embora depois da minha licença maternidade? Será que vão deixar de me promover porque não poderei mais me dedicar 12, 13, 14 horas por dia ao trabalho?

Sobre as mães com as quais pude trabalhar, não posso deixar de atentar para o fator social: a maioria era de classe média alta e contava com o auxílio de babás para que pudessem ter filhos sem prejudicar suas carreiras. Mas e as mulheres que não contam com nenhum auxílio além de si mesmas? Como podem conciliar a carreira com a maternidade sem que isso se torne um pesadelo de culpas, cansaço desumano e frustrações?

A publicidade vem massivamente tratando de temas como maternidade real e equidade de gêneros, mas precisa despertar para a camada mais essencial e base para esse assunto: esses temas que ficam tão bonitos na propaganda daquela marca bacana só têm aplicabilidade real através de um olhar mais humano e inclusivo sobre nós mulheres, um olhar que empreende realizações práticas no dia a dia profissional de toda e qualquer trabalhadora.

- Thais Padilha, Atendimento

6. A Criação ainda vive numa bolha masculina

Pense em todos os comerciais de TV, peças publicitárias e posts de marca que você já viu um dia na vida. Agora pense naqueles que são destinados às mulheres. Agora imagine uma agência de publicidade e o departamento de Criação. Não se assuste se, ao imaginar isso, você mentalizou apenas homens sentados na frente do computador criando títulos, imagens e legendas. A realidade é exatamente essa!

Ser mulher no departamento de Criação é ver homens e mais homens criando para ambos os gêneros, tentando emplacar discursos que eles mesmos nunca um dia vão compreender: "Respeite o seu corpo", "Você é linda sempre", "Solte a mulher que tem dentro de você"... A coisa azeda ao constatar que em muitas reuniões de criação, as minas que se posicionam contra as ideias arcaicas do que é ser mulher (ou em usá-la como objeto para vender "produto pra machão") são silenciadas, ridicularizadas e obrigadas a achar que o mundo ainda é dos homens e comandado só por eles.

O pior é que é mesmo! Num panorama geral, 47% das empresas não têm mulheres na liderança, 5,6% do público feminino ocupa cargos de diretoria e apenas 4% das executivas mais importantes do país são mulheres (segundo dados retirados do International Business Report 2014).

E o que fazer? Se você trabalha em uma agência e se encontra nessa situação, fica aqui a dica: resista! Faça sua voz ser ouvida! E não apenas pela causa, mas porque sua agência e seus clientes vão levar a melhor nessa. É 2017 e marcas que não se posicionam são esquecidas e substituíveis. Há casos e casos de uma publicidade que empodera minorias e de marcas que ganham relevância por isso. E gata, se mesmo resistindo não adiantar, a grama do vizinho pode ser mais verde.

- Beatriz Pascon, Criação

7. E tem muito homem tirando vantagem

Eu tinha lá meus 20 anos, meu final de faculdade, meu mundo todo para explorar. Cheguei cheia de confiança naquela nova oportunidade de crescimento - lá eu teria meu espaço, minha voz, minha vez. Eu vou te contar desde já que eu sou bem orgulhosa do que conquistei, do jeito que conquistei - é importante destacar isso nessa história e eu vou explicar o porquê.

No meu primeiro dia de trabalho eu conheci meu chefe: homem, cerca de 15 anos mais velho, veterano da empresa. Toda orgulhosa, já fui apresentando meu CV. Não pra impressionar, mas pra ele ver ali tudo o que podia usar: bolsista da faculdade com notas altas, projetos acadêmicos reconhecidos, um punhado de palestras e workshops que me esforcei pra pagar. Eu tava lá, louca pra colaborar.

Ali, ele viu uma ameaça: teimosa, se esforça em mostrar trabalho. Iiih, bateu o pé? Tá de TPM, né? Teima demais em estudar, estudar “e o TCC, não vai conseguir se dedicar, viu”. Acha até tempo pras vagabundices de protestar. É ciúme, diziam. “Ele não tá acostumado em dividir holofotes”, diziam. Pô, marmanjo de 35 com ciuminho de mina de 20? E eu que saía com a fama de não compreensiva.

Eu não via, na época, o quanto aquilo me afetava. Eu nem vi depois, quando aos prantos pedi pra ir embora, infeliz com o que fazia. “Era pouco pra mim”, eu dizia, sem ver que ali havia uma pedra - um homem - que não deixava eu ser muito.

Só depois eu fui entender os e-mails dos quais eu era excluída. Só depois eu fui ver os ataques diários por meio de piadinhas à minha capacidade. Só depois eu fui ver a falta de vontade de sentar do meu lado e, como meu superior, de me ensinar. Ao sentar ao meu lado, eu via anulação do meu pensamento, o “deixa pra depois” das minhas ideias. O esforço, quase que natural, de me cansar, cansar, cansar até eu desistir. Eu vi a cara falsa de surpresa no dia da minha demissão, seguida de um alívio de satisfação.

Eu ia embora e ele ia continuar sem aquela mina de vinte anos pra atrapalhar. Ele continua lá.

- Raísa Sutecas, Criação

8. Se você é uma mina jovem, não te levam a sério

Existem questões com as quais qualquer um tem que lidar assim que se insere no mercado de trabalho, como não ter experiência ou a insegurança de estar num ambiente desconhecido. Mas quando além de jovem você é mulher, tem que lidar com muitas outras coisas difíceis, como: estar num novo ambiente onde existe o machismo, ser jovem onde jovem não tem voz, e não se sentir respeitada num ambiente no qual você passa oito horas do seu dia, o que é um atentado à qualidade de vida.

É ainda mais difícil porque na maioria das vezes quem está nessa posição também está passando por uma mudança de vida rápida e impactante (além de estudar, precisa trabalhar e construir uma carreira). A pessoa pode ser uma ótima profissional, mas mesmo assim encontrará barreiras para ser reconhecida devido ao simples fato de ser jovem, e é uma longa caminhada até conseguir ganhar voz nesse meio. E mesmo depois que a gente de fato consegue um espacinho, precisa continuar lutando eternamente pra não perder isso e passar novamente por todo aquele processo de ter que lutar pelo que já havia conquistado (pensa no quanto é bizarro ter que lutar pra conseguir RESPEITO). É como se os erros fossem menos permitidos para as mulheres que lutam por voz.

Será mesmo que não param pra pensar no quanto estão perdendo por deixar de ouvir alguém pela idade / gênero dela? Nenhum desses dois fatores impedem qualquer pessoa de dar boas soluções ou de trampar bem. Mas quando a pessoa é impedida de dar o seu melhor por simplesmente ser jovem ela é automaticamente desmotivada e aí sim o trabalho passa a ser prejudicado. Pare de prejudicar esse trabalho e passe a dar voz às jovens nas empresas, seja inteligente. O ambiente corporativo pode ser o local onde há uma troca de aprendizados e não apenas o local onde só um ensina e só um aprende.

Manas, vocês que já estiveram nesse lugar uma vez na vida compreendam suas colegas de trabalho, dividam experiências e sejam mais abertas com quem tá começando que assim todo mundo só ganha.

Homens, deem espaço para que as mulheres possam falar e comecem a pensar na forma como vocês agem diante de nós. Empatia é gratuita, repassem.

- Leticia Vasconcelos, Tráfego

9. Mas encontramos mulheres inspiradoras pelo caminho

Minha primeira referência feminina na propaganda é uma redatora incrível. Lembro de procurar os folhetos imobiliários dela pela agência toda vez que recebia um briefing.

A gente teve pouco contato, mas ela me acolheu e indicou pra algumas vagas mais pra frente. O que me levou pra Ana Paula Dugaich, a única chefe mulher e a Diretora de Criação mais inspiradora que tive até aqui. Por causa dela eu entendi o que era uma ideia estratégica, um feedback construtivo, que o último nível de talento com as palavras fica fora do papel.

Hoje eu tenho muitas mulheres-modelo, tantas que consegui olhar pra trás e entender esse processo. Correr atrás de cada uma é trabalho pra vida toda, mas colecionar referências já é progresso. Taí um grande ganho para este dia.

- Ana Paula Marques, Criação

10. Então não custa lembrar: não tem nada de errado com a minha saia...

A maior parte da minha vida profissional foi passada em grandes empresas, e nesse ambiente eu sempre precisei usar roupa social. Não precisava ser super Wall Street, mas tinha que ter ali uma calça social, sapato, uma blusa arrumadinha, e nunca tive problemas com isso. Às vezes usava saia ou vestido e estava tudo bem. Mas na minha última passagem por empresas, trabalhei numa que ficava no mesmo lugar que a própria fábrica, e tinha muitos homens o dia todo, em todos os lugares.

Um dia fui chamada por uma gestora (isso mesmo, uma mulher) para conversar sobre minhas roupas. Ela me disse que eu estava usando uma saia curta demais para aquele ambiente - mesmo que eu estivesse com uma meia calça super grossa porque estava frio. O problema, de acordo com ela, era que existiam ali muitos homens que poderiam se distrair pela minha saia curta (que nem era tão curta assim). Ou que o diretor do departamento poderia passar a me considerar uma pessoa que merecia menos respeito pelo tamanho da minha saia. De repente todos os outros homens ali deixariam de considerar minha opinião profissional porque eu estava de saia curta, e isso não poderia acontecer, então ela me pediu para que eu não usasse mais saia daquele jeito, só abaixo do joelho.

Eu entendo de onde veio essa repreensão, mas essa justificativa nunca me desceu, principalmente vindo de uma mulher. Como sempre, o problema é da vítima, não do estuprador. Pode parecer um exagero essa comparação, mas é a mesma linha de raciocínio que justifica um estupro pela roupa da vítima. O fato é que eu estava com roupa social e uma meia calça escura daquelas grossas de frio, e por mais que me olhasse no espelho, não conseguia achar nada de errado com aquilo. Acabei saindo de lá por uma série de razões, mas esse fato sempre pesou muito: ter sido repreendida por uma mulher porque eu não devia distrair os homens.

As mulheres sempre têm que se preocupar com o que vestir para serem levadas a sério. Seja cabelo preso para parecer mais séria, calça e terno para parecer mais profissional, maquiagem para parecer mais arrumada. Uma lista infindável de cuidados que temos que tomar para termos o respeito que deveríamos receber sem nenhuma condição. E que teríamos de graça de não fossemos mulheres.

- Talita Gonçalves, Influência

11. ...e muito menos algo de errado comigo

Como ser uma mulher fora do padrão institucionalizado pela sociedade é complicado. Como ser uma mulher fora do padrão no meio da moda e da publicidade, mais ainda. Por incrível que pareça, essas duas indústrias, que caminham juntas, podem ser (e são) bem excludentes com quem não se encaixa até no padrão-fora-do-padrão. Pode ser moderninha, descolada e diferentona, desde que seja higienizada: não tenha dobrinha à mostra, a maquiagem seja discreta, não mostre celulite e não mostre os pelos nas axilas.

A boa notícia é que, felizmente, eu tenho muita história pra contar. A péssima notícia é a mesma, pois foi particularmente difícil passar por todas elas. Trabalho com moda há 9 anos e não teve um único dia que ser eu mesma e acima do peso não tenham sido obstáculos, principalmente quando era mais nova e eu não sabia lidar com assédio moral e, muitas vezes, sexual.

Já ouvi de ex-chefes que se eu emagrecesse, até que seria bonitinha. Também já ouvi que eu teria que adequar meu estilo à empresa, um mês depois de trabalhar para eles, pois uma das minhas clientes não gostava da forma que eu me vestia. Para isso, eles queriam me pagar uma escova progressiva (ou seja, apagar minha identidade), escurecer meu cabelo e queriam que eu copiasse o visual da minha chefe (que, pasme, era considerado o “ideal”). Apenas um adendo: anos depois, ter raspado o cabelo também foi problematizado, pois, nas cabeças de muitas dessas pessoas, eu abdiquei do que elas consideram “feminilidade”, como se fosse algo importante, que afetasse o meu trabalho. Surpreendentemente ou não, isso também gerou discussão em ambiente de trabalho sobre a minha sexualidade (???). Surpreendentemente ou não, até amigos de dentro da indústria me disseram que minha careca seria um problema para eu conseguir emprego. E foi.

Queria muito poder dizer que o assédio sexual não entra na jogada, mas o fato é que ele acontece com mais frequência do que a gente gostaria de imaginar. Já tive chefe dando em cima de mim em rede social (e esse mesmo chefe já tinha feito a mesma coisa com outras colegas de trabalho); Já tive chefe dizendo que a minha risada era muito gostosa e que eu deveria rir e sorrir mais; Já tive chefe dizendo, na minha frente, que meu tipo de corpo era o que ele mais gostava; Além das inúmeras vezes que trabalhei em salas de criação cheias de homens, que só falavam do quanto as mulheres fora do padrão eram “zoadas”, todos os dias úteis da semana.

É muito cansativo pensar que todo dia é uma luta diária em busca de direitos iguais e um ambiente de trabalho que não seja hostil, com pessoas que tratem você como gente, como igual. Mas lembre-se: será ainda mais cansativo se você desistir.

- Vikki Góis, Criação

Influenciadores: como lidar com imprevistos

O que fazemos para entregar estratégias consistentes e promover uma relação positiva para marcas, produtores de conteúdo e consumidores

Nesta semana, o maior youtuber do mundo, Felix Kjellberg, do canal PewDiePie, perdeu a mão. Depois de um de seus vídeos trazer menções anti-semitas, o que era "brincadeira" virou uma baita duma crise: perda de seguidores, rompimento de contrato com a Disney e mudanças na relação com o Google, conforme relata o Meio&Mensagem.

Fomos ouvidos pelo M&M nesta semana sobre os cuidados a se tomar para evitar que marcas caiam em situações como esta, e a partir daí decidimos nos aprofundar nessa conversa, bem importante: como criar estratégias de influência benéficas para o criador de conteúdo e a marca de modo a trazer retorno positivo a todos?

Sempre partimos daquela premissa de que quando falamos de criadores de conteúdo, lidamos com pessoas. Com CPFs, não com CNPJs. Abaixo, no melhor estilo listão, passamos por alguns pontos que norteiam muito o trabalho do time de Influência da Mutato.

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Vá fundo no passado
Fazemos um rastreamento detetivesco [no melhor estilo Xeroque Romes] dos influenciadores que indicamos para nossos clientes. Não é só usar ferramentas para rastrear comentários negativos: é entender se há registro de discurso de ódio, opiniões discrepantes com visão, missão & valores da marca… Enfim, uma análise profunda. Demora. Horas de pesquisa, vídeos assistidos, centenas de milhares de comentários lidos - tudo isso numa série histórica. Um time que há anos se dedica a acompanhar, descobrir e conectar influenciadores e marcas. Se em algum momento do processo identificamos algo estranho, é muito comum não recomendar o influenciador. Por mais popular, divertido e alinhado às estratégias da marca que ele seja.

Tenha um olhar estratégico
Nós sempre vamos além da ação pontual. Trabalho com influenciador é relacionamento. Conhecer a pessoa, entender as nuances do seu contexto social e chegar a uma análise mais profunda de com quem estamos estabelecendo uma conexão. Como falamos acima, estamos lidando com ~cerumaninhos.

Ainda assim, há riscos
Isto tudo considerado, vale lembrar que pessoas simplesmente... erram. Falam besteira. Não pensam direito numa opinião que não faz sentido. E o mundo cobra a conta, ali na caixa de comentários. Imediatamente. Todos os envolvidos precisam estar preparados para lidar com esse ambiente. Errar é parte do processo. E faz parte do processo absorver erros e responder de forma construtiva.

Deu ruim. E agora?
Não tem resposta única. Cada crise é uma crise - e a única certeza é que todos passaremos por pelo menos uma. Até aquele momento, no entanto, vale lembrar que nós nos asseguramos de que havia um alinhamento de valores entre os envolvidos no processo. E são esses valores acordados - mesmo que tacitamente - que permitem uma avaliação de quais comportamentos e atitudes são e não são toleráveis. Se a partir de dado momento encontramos um desalinhamento, temos que zelar pela marca e seu público e tomar as medidas necessárias. Em casos mais simples, talvez a rescisão do contrato seja a resposta.

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Aprenda com o erro
Alguns erros podem ser toleráveis e abrir caminho para um aprendizado grande para a marca. Aí, só é preciso considerar se as pessoas estão dispostas a participar dessa conversa e contribuir para o aprendizado que se pode tirar a partir de uma crise. Obviamente, uma regra que não vale em casos de discurso de ódio.