Casa cheia, gritaria e disputa: um dia no 'Brasileirão' de League of Legends

Por que todos deveríamos prestar mais atenção nos e-sports

No último sábado (13), meu programa não foi aproveitar o sol que esquentava São Paulo em algum parque ou praça. Nem mesmo ir ao cinema. Mergulhei na final do Campeonato Brasileiro de League of Legends. Se você não está familiarizado com esse campeonato, apelidado carinhosamente de CBLoL, vamos lá: League of Legends, aqui na Mutato carinhosamente apelidado de Lolzinho, é um jogo online no qual dois times (com cinco participantes cada) tentam invadir a base do oponente e destruir o coração ali guardado. Essa é uma definição bem simplificada de um universo bem mais imersivo e complexo, e se você tiver interesse recomendo alguns docs ao final desse texto.

Meu foco aqui é falar sobre o que vivenciei no último sábado, como esse evento mudou minhas percepções sobre um mercado em ascensão e como virei um defensor dos esportes eletrônicos (e-sports) repentinamente. Sim. League of Legends é um esporte, reúne milhares de de fãs (mais que muitos esportes olímpicos) e, ao mesmo tempo, é um video game. E um video game com direito a campeonato e final com dezenas de milhares de espectadores. Então, vamos seguir sem preconceitos e entender melhor esse universo? 

Essa é a mega estrutura que atraiu cerca de 10 mil pessoas ao Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo

Essa é a mega estrutura que atraiu cerca de 10 mil pessoas ao Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo

Vou tentar reproduzir a imagem mental que capturei do evento, cujos ingressos esgotaram meses antes, em questão de horas - e ainda assim levou fãs de todo o país até São Paulo, sem ingresso, em busca de uma chance (ao acaso) de entrar no Ginásio do Ibirapuera.

A fila de entrada chegava a contornar boa parte do quarteirão do estádio. Pessoas vestidas com camisetas da INTZ e CNB, os times que competiam nessa final (tipo usar camisa do Corinthians em dia de decisão), levavam cartazes com frases de motivações (lembrou de "Filma eu, Galvão?") e homenagens aos seus ídolos-jogadores favoritos: "Vai Revolta, o incrível", "CNB, melhor do Brasil", "INTZ Campeão" e assim por diante. Lembro de ter visto algo parecido uma vez, na entrada de um jogo Corinthians vs América (RJ). Naquele exato momento, meu olhar para o que aconteceria no ginásio mudou. Eu estava diante de algo bem grande, como sempre suspeitei.

Na área externa do ginásio os passantes disputavam fotos com os milhares de cosplays e poses com jogadores dos outros times que não chegaram à final. Toda essa turma compõe a gama de subcelebridades (que de sub, na real, não têm nada) seguidas por milhares de fãs de Lolzinho. Eu mesmo, na animação do momento, tomei coragem e tirei uma fotos com a Queen B, uma streamer de LoL (quem joga LoL e faz um streaming da performance) transsexual, que tem sistematicamente aumentado sua base de fãs/espectadores. Aproveitando o fôlego também fiz uma foto com o Alocs, ex-jogador profissional e atualmente treinador de um dos times de renome de LoL, o Keyd Stars (por sinal, patrocinada pela Vivo).

Enquanto navegava por ali, percebia uma movimentação gigante, um zum zum zum constante sobre as possíveis composições que os jogadores fariam, gritos de guerra das torcidas e os dedos que apontavam para rostos conhecidíssimos dessa cena. Tudo, porém, num clima mais de celebração que de rivalidade esportiva.

Isso até eu subir as escadas que davam acesso ao ginásio. Da cortina preta para dentro, meu amigo, até eu virei um proto-hooligan de Lolzinho. Uma multidão de pessoas lotava as arquibancadas do ginásio. A Riot (produtora do LoL) estimou em 10 mil pessoas o total de torcedores ali reunidos, sempre vidrados num telão suspenso com apresentadores, comentaristas e narradores dando suas opiniões e previsões sobre o jogo. Eram análises embasadas e apaixonadas. Eles pegavam os históricos dos jogadores, quais itens usavam, quais personagens, quais composições e como isso tudo representava as vitórias garantidas até o presente momento. Era um "Bem Amigos", da SporTV, porém de League of Legends.

Vibe do CBLoL enquanto rolava a competição

Vibe do CBLoL enquanto rolava a competição

Na sequência, uma cerimônia de abertura no mesmo estilo de Copas do Mundo e Olimpiadas garantia uma euforia crescente. Vale dar uma assistida aqui para ver que cada segundo vale a pena. Foi lindo.

Dali em diante, o que vi (e participei) foi um loop eterno de gritos e palmas a cada objetivo conquistado, intercalados por momentos de silêncio enquanto torcida acompanhava uma perseguição ou a movimentação dos personagens pelo mapa do jogo. Ao fim da competição, que durou em torno de 7 horas, a equipe INTZ foi anunciada como campeã. E comemorou levantando a ~singela~ taça que recebeu, rodando o palco e agradecendo. 

Ao fim da tarde, saí do ginásio com o peito acelerado e uma vontade louca de correr para casa e logar na minha conta para tentar executar as jogadas épicas que eu acabara de ver. Mas, no fundo, sabia que isso não aconteceria. Não tenho a mesma experiência daqueles jogadores que levaram o caneco para casa. Não sou um profissional; ou melhor, não sou um atleta (ou e-atleta, se assim preferir). Não tenho 12 horas diárias de estudo de jogadas, de composições, de acompanhamento médico e psicológico, tampouco a prática para conseguir pensar e executar aquilo tudo em poucos segundos - um conjunto de aspectos crucial para conseguir a vitória. Não parece, mas é muita pressão. Que só percebi depois que vi(vi) isso bem de perto. A algumas fileiras de distância do palco.

E daí, o que eu deveria levar desse texto?
 Bem, se ainda não deixei claro o intuito do texto talvez eu tenha sido mais passional do que pretendia. Mas, em resumo, o cenário de League of Legends - e ouso dizer de e-sports no geral - só cresce. Foram 10 mil pessoas presencialmente assistindo a uma final de jogo. Existe uma lista de marcas que patrocinam os times profissionais desse esporte. Marcas como Vivo, Adidas e Dell já entenderam a relevância desse movimento para seus negócios e estão ganhando pontos por terem chegado primeiro.  

Para trazer mais um exemplo do potencial dos e-sports, nesse ano a final foi transmitida pelo SporTV e, obviamente, por streaming. Ainda espero os dados de espectadores serem liberados (estão em contagem pela Riot), mas prevejo que o número não será baixo, não mesmo. Não vou bancar o guru e dizer que ~o futuro da produção de conteúdo para marcas está ali~, mas estamos falando de um movimento culturalmente relevante e para o qual devemos olhar com mais atenção. Negar os e-sports é se fazer míope para uma transformação que não é pequena - e que logo não será tão nichada quanto muitos dizem.

Até porque perdi a conta de famílias inteiras (pais acompanhando seus filhos adolescentes) super absortas na competição, fosse pai ou filho usando os termos característicos do mundo do Lolzinho. Temos alguns dados que corroboram essa minha percepção. Abaixo trago uma comparação bem legal sobre a repercussão de League of Legends e do Campeonato Brasileiro de LoL, que aponta a força que ele vem ganhando ultimamente. Puxando dados no Google Trends, vemos a crescente procura sobre League of Legends no Brasil - um volume próximo ao do Brasileirão 2016 e também ao termo futebol. E aí vale destacar que é um crescimento em cima de um esporte que é paixão nacional, com décadas de construção de base de fãs.

Aumento do interesse por LoL a partir de registro do Google Trends. Hoje, já supera o Campeonato Brasileiro de futebol. Fonte: Google Trends

Aumento do interesse por LoL a partir de registro do Google Trends. Hoje, já supera o Campeonato Brasileiro de futebol. Fonte: Google Trends

O segundo estudo, que fizemos internamente usando ferramentas de Insights, analisou a performance das hashtags #GoCNB #GoINTZ e #cblol em comparação com a hashtag #MasterChefBr durante a semana em que esses dois eventos aconteceram. Os dados, considerando uma amostragem de Twitter e Instagram, nos mostrou que, apesar de MasterChef ter mais menções que CBLoL, o alcance e impressões das hashtags de LoL são superiores. E vale aqui outra consideração: MasterChef é um programa em sua terceira edição, dentro de um canal aberto, enquanto CBLoL conta com plataformas digitais (não necessariamente massivas como a TV aberta) para chegar às pessoas.

Bem, acho que agora ficou mais claro, certo? Estamos falando de um movimento que cresce a cada dia e conquista mais os holofotes para além das barreiras do online. É todo um mercado de jogadores, fãs, influenciadores, profissionais, comentaristas, analistas, cosplayers e tantos outros que só esperam que isso cresça e tome mais espaço no mundo.

Pra (quase) fechar, vale a ressalva: neste texto eu falei do cenário de League of Legends, mas há todo um universo de games com cenário muito rico e particular, como: Dota 2, Smite, Overwatch, Street Fighter, Fifa, CS Go, Just Dance, Starcraft, HearthStone, etc e tal. Sem falar no Pokémon GO, claro, que merece um post ou textão só pra ele.

E, aí sim pra acabar, algumas referências legais para se aprofundar no tema:

  • Live / Play, um documentário sobre 5 jogadores ao redor do mundo unidos pela paixão por LoL.
  • Free to Play, outro doc sobre 3 jogadores numa corrida pelo prêmio de US$ 1 milhão ao vencedor de Dota 2, talvez o jogo com maiores prêmios em dinheiro (em 2015, foram US$ 16 mi distribuídos entre os vencedores);
  • The Celebrity Millionaires of Competitive Gaming, doc da Vice sobre o cenário dos games, seus códigos e costumes na Coréia do Sul, um dos principais mercados de e-sports.


*Denis Mercaldi é planner da Mutato