10 sintomas de que preconceito é o nome da doença que deveríamos curar

Diante da decisão judicial que autoriza a prática de suposta "reversão sexual" popularmente chamada de "cura gay", abrimos espaço n'Ø Bløg para que LGBTs da Mutato contem como a associação de suas sexualidades ao universo das doenças é nociva para todos nós - mas, em especial, para a comunidade LGBT.

A seguir, 9 relatos que mostram que não podemos aceitar calados retrocessos como este. Aqui não, obrigado.

 

"É engraçado como a sociedade tenta moldar a gente. Sempre rolou uma briga interna pra entender o porque que eu não me encaixava na sociedade. O que tinha de errado que eu não conseguia me encaixar nos papos que rolavam nas rodas de amigos? Por que eu sou tão tímido e não consigo me relacionar direito com estranhos? Por que eu preciso falar de futebol se eu não quero? Por que pra algumas pessoas é tão mais fácil fazer amizades e se soltar e eu demoro meses ou anos pra conseguir uma aproximação ou mesmo criar intimidade? Essas perguntas sempre me perseguiram desde que me entendo por gente e é muito triste pensar que, durante a minha infância, eram estas as principais dúvidas que me rodeavam. Pensa numa criança com conflitos internos muito mais complexos do que os de qualquer adulto. Esse era eu. E ninguém imaginava.
O mais estranho nisso tudo é não saber o motivo dessas perguntas. Elas não tinham respostas, mas eu sabia que alguma coisa não se encaixava. Só só fui entender realmente que esses questionamentos estavam ligados à minha sexualidade com 27 anos, quando comecei a fazer terapia e, consequentemente, a me conhecer melhor e entender que tudo que somos hoje é reflexo constante do que fomos no passado. O processo do autoconhecimento poderia ter sido natural e menos traumático se eu soubesse desde criança quem eu era, mas isso me foi tirado desde sempre. Fui entender o que era uma pessoa LGBT depois dos meus 15 anos, mais ou menos. Até então era assunto proibido. Não podia ser dito na frente das crianças. Iria corromper. Se seu filho "virasse" "viado", "bicha", isso seria humilhação pra família.
Privar o direito do conhecimento e tratar a essência de uma pessoa como algo abominável, doente, é matar qualquer um aos poucos. Eu hoje sou seguro do que sou e tenho total consciência de que não se trata de doença, mas quantas crianças e pais pensam o contrário e vão apenas repetir todo o ciclo de sofrimento que praticamente todo LGBT passou? Se tem alguma coisa aqui doente é a sociedade que me privou (e ainda priva) de muita coisa."

- Felipe Lecina, Criação

 

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"O primeiro sintoma da minha doença se manifestou logo cedo, quando todo mundo falava que um garoto da minha escola era apaixonado por mim, mas eu era apaixonada pela minha melhor amiga. Eu só percebi que era “doente” mesmo quando eu não entendia porque só era "ok" quando meninas eram apaixonadas por meninos e meninos eram apaixonados por meninas, sendo que eu era apaixonada pelos dois."

- Camilla Oliveira, Insights

 

"Seria cômico se não fosse trágico dizer que por muito tempo, de fato achei que eu era doente. Que era errado ser do jeito que eu era. Que era errado gostar das pessoas que eu gostava, ter os desejos que eu tinha. Por longos anos foi uma luta entender o que estava acontecendo de “errado”comigo. Eu queria, a todo custo, ser igual aos meninos da escola, os meninos do meu time, ser como meu pai. Mais importante ainda, a todo o momento eu sentia que não orgulhava meu pai por não ser o exemplo de “homem” que foi imposto que me tornasse e que ele me cobrava sempre.
Foi então que percebi que minha verdadeira doença era não me aceitar como eu era. Era evitar me apaixonar por quem eu era realmente apaixonado. Minha doença era não aceitar meu jeito, minha voz, meu desejo. Minha doença foi fazer pessoas sofrerem por fingir gostar do sexo oposto, sendo que era uma grande mentira. Carrego essa culpa até hoje e tento seguir em frente.
A partir do momento que percebi minha “doença” e a aceitei, me tornei outra pessoa. Mais feliz, mais sociável, sem medo de falar, sem medo de bater de frente, sem medo de ser eu. Me permiti começar a viver e viver livre é a melhor coisa do mundo."

- Bruno Honório, Insights

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"Gostar de homem nunca foi um problema pra mim. Descobri quando surgiu a oportunidade de ficar com um, eu fui lá e fiquei, e gostei, e pronto. Como conheço muita gente que sofreu nesse momento, sei que o meu caso foi uma benção. Eu fui abençoado nesse momento.
Mas apesar do armário ser um lugar horrível e gélido, nada garante que ao sair dele todos os seus problemas vão acabar. Alguns estão só começando.
Talvez você que está lendo não esteja familiarizado com todas essas categorias que mencionarei a seguir, mas: eu sou velho demais pra ser um twink, sou novo demais pra ser um daddy, afeminado demais pra ser "discreto fora do meio", flácido demais pra ser uma barbie, magro demais pra ser um urso, gordo demais pra ser um lontra, desengonçado demais pra dançar a última da Rihanna.
Eu luto por direitos LGBT por uma questão de justiça, de ideologia política, de democrata que sou. Mas é quase que como lutar por terceiros, porque dentro do mundo gay convencional, eu me sinto só. E mesmo que descobrir a minha homossexualidade não tenha sido nada sofrido, conseguir "existir" dentro do tal vale já foi sim penoso. Já fiz muito pra conseguir me encaixar, pra parecer o gay idealizado que a sociedade me pintou e que a maior parte da comunidade LGBT espera. E essa é a minha cura, o meu processo de tratamento: cada dia, um comprimido de auto-aceitação. Estou longe de ser seguro, de me achar lindo, de ter orgulho do meu corpo em qualquer estágio dos zilhões de efeitos sanfonas, etc, mas um fato é inegável: o Mario Lemes de hoje está muito melhor que o Mario Lemes de cinco anos atrás, e não há ninguém neste mundo que possa parar a evolução desse tratamento.
Eu não posso permitir que tratem a homossexualidade como doença, porque ela foi justamente o início da minha cura. Ser gay foi a primeira coisa que aceitei sobre mim."

- Mario Lemes, Criação

 

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"Os primeiros sintomas eu senti quando ainda estava na escola, a maioria dos meus amigos eram meninas e qualquer coisa que elas faziam me parecia muito mais interessante que as atividades dos colegas meninos. Às vezes me arriscava jogar bola ou entrar nas brincadeiras mais violentas. Tinha certeza que dava conta também, mas sempre era inferiorizado pelos outros garotos. Eu não tive namorada, uma vez fiquei muito próximo de uma garota e até fantasiei um namoro, mas a gente era só "mais que amigas, friends".
A cada aniversário a atração por garotos aumentava, tudo indicava que o caso era grave, mas a religião e os bons costumes preferiam a morte à homossexualidade e, aos poucos, fui matando quem eu era, apagando minha sexualidade.
Alguns anos de infelicidade seguiram até eu ter o primeiro "surto": depois do Carnaval, várias festinhas, vários amigos gays que me ajudaram como num grupo de apoio, uma Parada Gay e alguns beijos em homens em lugares públicos, senti que não tinha volta, eu percebi que era crônico. Minha família não sabia, eu precisava contar. Foi um caos, guardei isso em segredo por bastante tempo mas, quando finalmente contei sobre isso, tive amor, a cura que eu precisava para todo o drama que eu tinha sofrido.
Sobre a viadagem... Sigo bem assim, obrigado."

- Leo Maia, Criação
 

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"Lembro que a ideia de ser homossexual sempre me assustou. Por, na época, ser um homem gay negro e careca, qualquer comparação que me levasse à Vera Verão me causava pavor. Não queria ser assim, não sabia que podia ser de outro jeito - não que tivesse qualquer mal, mas algo em mim não estava bem.
Crescer gay dentro de uma sociedade que usa isso como chacota é difícil porque te leva a repressões e questionamentos com os quais a gente não sabe bem lidar. É engraçado quando tentam te unir a mulheres, é engraçado a tentativa de mascarar isso de alguma forma, mas não é engraçado querer gritar isso a plenos pulmões e não poder.
Eu não era como os outros meninos. Por muito tempo eu quis ser, eu quis sentir, eu quis ser igual. Não era, nunca seria e talvez fosse esse um dos processos que me ajudariam a ser cada vez mais fiel a quem eu realmente sou.
Eu não era uma aberração, eu não era uma doença, eu era diferente e essa diferença ainda incomodava, mas foi só depois de ouvir "Beautiful", em 2003, e ver o clipe (que contava com um beijo incrível de um casal gay) que pude perceber que isso era um pouco mais complexo do que tudo à minha volta. Teria medo, teria preconceito, teriam olhares mil, mas o amor seguiria sendo algo bonito e puro.
Hoje eu abraço o Caio de antes, mostrando pra ele que isso foi a melhor coisa que ele poderia ter feito. Hoje eu sei que não sou esquisito, sei que não sou uma aberração - e muito menos doente."

- Caio Baptista Antonio, Criação

 

"Os efeitos colaterais da cura não estão na bula (pouco lida e mal interpretada). Incluem sentimentos de opressão, depressão e síndromes incontáveis; sintomas visíveis e invisíveis. Além de despertar raiva (de outros) e, inclusive, causar a morte.
Pior que o tratamento, só o diagnóstico. Como pode alguém dizer que a felicidade de alguns é doença? Que a liberdade do outro é aberração? Que a paz em ser você mesmo (ou quem você quiser) é loucura?
Alguém deveria inventar um remédio pra o preconceito e não transformá-lo em remédio. Pior que isso, só aceitar o ódio como receita caseira. Eu sou feliz, e não doente. E o que pode me matar é o que você considera o seu remédio."

- R.B., Atendimento

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"Enfrentar a adolescência como gay me fez passar por dramas clássicos como realmente sentir que havia alguma coisa errada comigo, pedir a Deus que me “consertasse”, me forçar a me masturbar pensando em mulheres e fingir interesse por mulheres pros meus amigos pra me fazer sentir mais “normal”.
Como um adolescente dentro do armário, passando por tudo isso sozinho e só com meus pensamentos, chegou uma hora que eu cansei e resolvi assumir essa identidade secreta e me aceitar com essa “doença”. De dia eu seria o “Vitão”, bróder, e de noite “Vitona”, a ursa. Resolvi me vingar da hipocrisia e do julgamento atacando o patriarcado no cerne da família e dos bons costumes. Usando a ferramenta da época, o Bate Papo do UOL, eu transava com homens casados, pais de amigos, diáconos da igreja que papai frequentava.
Mas levar essas duas vidas tinha um custo. Eu nunca me sentia 100% eu.
Foi quando eu conheci outros "doentes" que viviam expostos como gays e pareciam felizes, se apaixonavam entre eles e não precisavam de identidades secretas que eu me juntei a eles. E hoje somos felizes para sempre no Vale dos LGBTQ+’s."

- Victor di Lorenzo, Criação

 

"O primeiro sintoma foi a negação. A fase inicial da doença autoimune que mais mata no Brasil. Entre um Google e uma ida ao médico, muito medo, desconfiança e anos calado (8 para ser mais exato). Você tenta medir as consequências da revelação pro mundo e falha. Você tenta sair desse ciclo e falha mais um pouco. Você é uma falha. Até o dia em que você cansa. Cansa de atuar, de tentar ser normal. Cansa de negar o diagnóstico fatal: GAY!
E esse cansaço - em algum tipo de processo quântico - vira luta, a luta te fortalece, te aproxima de quem está no mesmo leito. E nossa força grita todo santo dia nesse ambiente hospitalar que vivemos: não voltaremos pro canto espremido das suas mentes pequenas! JAMÉ!"

- Erick Garcia, Insights

 

"Eu tenho lembranças de "ser doente": bem pequena queria brincar de carrinho e pega-pega com os meninos, queria praticar esportes, não ligava para roxos e machucados. Ser gay, lésbica, trans era considerado errado, doença, perversão. Mas, no fundo, sabia que queria ficar com meninas.
Na adolescência continuei com alguns sintomas: admirava (demais) algumas amigas, não me encaixava no padrão das garotas do colégio e às vezes que tentei foram horríveis pra mim. Eu não me via e nem acreditava naquele personagem que eu estava inventando, tentando me encaixar em algo para fugir do que era "errado".
Eu mesma caçoei e fui homofóbica para afastar qualquer (todas) suspeitas sobre mim. Eu era uma criança super ~viada~, digo, sapatão.
É bem fácil confundir gênero e sexualidade. Eu gostar de coisas de "menino" me fazia lésbica? Aprendi com a vida e com pessoas maravilhosas que não. O que me faz ser lésbica é simplesmente ser mulher e gostar de mulher.
Não é errado, não me faz diferente de ninguém, não me faz precisar de cura.
Pelo contrário, depois que me assumi (pra mim mesma, pra família, amigos e sociedade), consegui ser mais eu mesma, consegui fazer amigos de verdade, amar de verdade, ser eu de verdade.
Até hoje faço terapia pra entender que eu não sou o problema. Alguém precisar de terapia pra entender isso já é péssimo, mas pelo menos estamos caminhando pra frente, nos entendendo como seres humanos diferentes e complexos, muito além de rótulos rasos.
Espero que as pessoas e os profissionais entendam isso. Para que a gente não retroceda ainda mais como sociedade. Eu realmente acredito que o amor pode salvar. Amor é amor."

- Juliana Boscardin, Produção Audiovisual