8.MAR.18 | Ser uma líder mulher

Fernanda Guimarães, Diretora Executiva de Criação da Mutato, reflete sobre liderança no Dia Internacional da Mulher

Toda vez que escrevo essa frase eu me lembro daquela piadinha sobre como se chama restaurante japonês no Japão. A resposta é “restaurante”.

Como se chama uma diretora de criação mulher no Brasil? Diretora de criação mulher. Como se chama um diretor de criação homem? Diretor de criação.

Ser uma líder mulher é falar mais sobre ser mulher do que ser líder. É saber que se ocupa essa posição de resistência, resiliência e militância, por mais que você só queira fazer um bom trabalho.

Eu realmente nunca tinha pensado que ser mulher na profissão que eu tinha escolhido na época da faculdade teria alguma coisa a ver com abrir espaço num matagal. Na hora de escolher entre especialização em marketing ou criação, o assunto "ser mulher" jamais veio à pauta. Hoje me pergunto como. E questiono quantas das mulheres que ali se propuseram a apostar em criação hoje ainda atuam como ou chegaram à mesma posição de liderança em que certamente chegaram aquelas que apostaram na de marketing.

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Minha mãe é engenheira civil e sempre trabalhou numa área extremamente masculina: a de pavimentação de estradas. Ela tem na parede de casa a foto dela na capa de uma revista de construção. Sempre foi uma das únicas mulheres da classe, do trabalho, da reunião, da capa da revista, quando não a única mesmo. Talvez eu tenha entendido desde pequena que ser a única mulher no meio de um monte de homens não tinha grandes problemas, pois ela sempre foi bem sucedida, chegou a ter dois empregos simultâneos e ainda se virava pra levar a gente ao médico, à escola, enfim, sempre foi muito presente.

Hoje eu entendo que deve ter sido uma incrível batalha para realizar tudo aquilo. E que ela poupou a gente dos lamentos. Diria que o que me separa dela é que certamente ela não foi chamada pra escrever sobre ser uma líder feminina no Dia da Mulher. Não houve o reconhecimento do esforço extra que ela fez pra ser olhada com igualdade. Não sei dizer se foi dada a ela a chance de levar isso a outras mulheres.

O meu objetivo com esse texto é contribuir, por pouco que seja, pra que um dia esse convite a escrever sobre ser uma líder mulher vire apenas um convite para falar sobre ser LÍDER. Esse dia vai existir quando as mulheres puderem ser ambiciosas sem que os outros a julguem carreiristas; quando elas não mais tiverem que escolher entre ser bem sucedidas e poder cuidar de suas famílias; quando suas ideias forem ouvidas com a mesma credibilidade; quando elas puderem sentar à mesa das decisões mais importante de uma empresa; quando puderem ser enfáticas sem serem entendidas como histéricas.

Não falar enquanto elas estão falando ou explicar o que elas acabaram de dizer, vou te falar, tem menos a ver com direitos iguais e (bem) mais com o mínimo do respeito.

Vejam que os benefícios estão muito além da geração que será favorecida pelo que estamos vivenciando hoje. Eu espero que nenhuma filha de quem está em agência hoje ache que escolher atuar em áreas de Criação na publicidade trará consigo uma questão de gênero. E essas filhas poderão ser poupadas disso com estruturas capazes de dar direitos iguais de verdade. Com pessoas que acreditam nessas mulheres. Com mais líderes mulheres.

Uma indústria da publicidade que fomenta talentos femininos desde a base, investe nelas, promove, oferece plano de carreiras, as coloca devidamente em fichas técnicas... Essa indústria ainda não existe. Mas ela seria capaz de permitir às filhas de mães criativas se sentarem na plateia de premiações pra ver suas mães brilharem. E seria muito mais inspirador que qualquer anúncio de Dia da Mulher. Vamos lutar juntas e juntos por isso.